Radicar a justiça, optar por uma economia social, regulamentar o mercado, moderar as ambições do possuir e optar por uma vida mais austera, eis aqui valores evangélicos que podem ajudar a obter as metas propostas e cujo exercício é muito oportuno em tempo de Quaresma.
Neste fim de semana nas igrejas, mas também nas ruas, realizou-se uma colecta para ajudar a acção da Cáritas, instituição da Igreja católica direccionada para a ajuda humanitária aos mais pobres, não apenas aqueles que residem à nossa volta, nas nossas aldeias, paróquias ou dioceses, mas em qualquer parte do mundo, com especial atenção às vítimas de catástrofes. Como se não bastassem os cerca de 20% de pessoas que entre nós vivem no limiar da pobreza, de vez em quando, muitos outros se lhes juntam, vítimas de sismos, acidentes, guerras, fogos, inundações, etc. e que interpelam a nossa solidariedade, com aconteceu recentemente nos sismos do Haití e do Chile e nas enxurradas da Madeira.
A Cáritas lançou a campanha de sensibilização e angariação de fundos deste ano com o lema: erradicar a pobreza, radicar a justiça, que traduz bem a convicção de que sem justiça não conseguiremos ganhar a luta contra a pobreza.
Perante tantos pobres no mundo, o quantitativo material da ajuda dos cristãos é insuficiente, mas o apelo à partilha, o estímulo à dádiva é importante para encaminhar a solução deste problema. Sem conversão das nossas atitudes, baseadas no ter, no parecer, no poder, no ser mais que os outros, dificilmente se erradicará a pobreza do nosso planeta. A humanidade tem de rever os seus critérios de vida, os princípios orientadores das suas relações com a natureza e os seus semelhantes. Para os crentes a relação fundante é aquela que liga tudo e todos com a sua fonte e origem: Deus. Nela se fundamenta a igual dignidade de todos, que nos leva a viver e conviver uns com os outros, na entreajuda mútua, e não uns contra os outros ou à custa dos outros. A lógica da vida do crente é a do outro, o amor, a vida para os outros e ao seu serviço. Isto acontece normalmente nas famílias organizadas, mas deve estender-se a toda a família humana.
Os governos e as instituições, assim como as religiões, também se devem orientar por esta lógica. Foi neste sentido que na viragem para o terceiro milénio os países se comprometeram a erradicar a pobreza do planeta no seu primeiro decénio. Entretanto está a terminar e estamos bem longe disso. E as causas são múltiplas e todos estamos implicados no fracasso. Reconhecendo-o, estamos em condições de fazer a reviravolta. Por isso a União Europeia decretou 2010 como ano de luta contra a pobreza e a exclusão. Conhecendo a nossa realidade, os casos e as causas da pobreza e da exclusão, poderemos ainda ganhar a luta contra o tempo, pois o mundo tem recursos suficientes para todos os seus habitantes, se moderarmos as nossas ambições e pautarmos a vida por critérios de desenvolvimento sustentável e de partilha fraterna.
Para corroborar esta luta, a Cáritas internacional está a promover uma petição nos países da União europeia, que pretende reunir um milhão de assinaturas a favor do compromisso de até 2015 se reduzir para metade a percentagem dos pobres, realçando quatro áreas, a saber: erradicar a pobreza infantil, dando a todas as crianças condições e possibilidades de vida digna; assegurar um nível mínimo de protecção social para todos; aumentar a prestação de serviços sociais e de saúde; garantir emprego digno para todos. E em todas estas áreas deve ser dada atenção especial aos grupos socialmente mais vulneráveis.
Objectivos louváveis e nobres, para cuja prossecução todos devemos contribuir. Mas para isso sabemos que temos todos de nos converter, assumir uma nova mentalidade e atitude. Como conseguir trabalho e ocupação digna para todos, quando as empresas procuram produzir cada vez com menos custos, procurando mão de obra barata nos países pobres e recorrendo à automatização dos seus mecanismos de produção?
Radicar a justiça, optar por uma economia social, regulamentar o mercado, moderar as ambições do possuir e optar por uma vida mais austera, eis aqui valores evangélicos que podem ajudar a obter as metas propostas e cujo exercício é muito oportuno em tempo de Quaresma.
Neste sentido, desejo a todos continuação de um tempo quaresmal mais fincado na descoberta dos valores cristãos e humanos à luz do Evangelho e até para a semana, se Deus quiser.
† António Vitalino, Bispo de Beja