O sismo do Haiti, que matou milhares de pessoas, fez desaparecer muitos debaixo de escombros e derrubou palácios e barracas, não poupando mesmo as igrejas.
Sabendo que se trata de um país pobre, o mais pobre da América, como ajudar os vivos e tratar os feridos, o mais rapidamente possível?
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Estava eu a preparar a minha participação numas jornadas sobre as migrações e o tráfico de seres humanos para os mais diversos fins, desde o trabalho forçado à exploração sexual e ao comércio de órgãos, sem respeito pela dignidade humana nem por parte dos explorados nem dos exploradores, quando sou confrontado com a notícia do sismo do Haiti, que matou milhares de pessoas, fez desaparecer muitos debaixo de escombros e derrubou palácios e barracas, não poupando mesmo as igrejas.
Imediatamente um turbilhão de pensamentos passou pela minha cabeça. Sabendo que se tratava de um país pobre, o mais pobre da América, como pude constatar depois, densamente povoado, numa área semelhante à do Alentejo, quase com o número de habitantes de Portugal, como ajudar os vivos e tratar os feridos, o mais rapidamente possível? Quem coordena a ajuda e como se faz chegar junto das populações o auxílio necessário, se as redes viárias, marítimas e aéreas estão altamente danificadas? Quem assume a responsabilidade internamente, se a administração do país colapsou? As imagens de sofrimento e desespero que iam chegando até nós, ainda mais perplexos nos deixavam e continuam a deixar neste momento.
Constato que a globalização só funciona para a comunicação, as guerras e as finanças. Vivemos numa aldeia global, mas os serviços internacionais e mundiais não funcionam no terreno concreto, sejam eles Cruz Vermelha, Nações Unidas ou outros. Os mecanismos de acção em emergências precisam de ser revistos, para não deixar dias a fio pessoas mutiladas e soterradas a esvair-se em sangue sem ninguém que as possa socorrer. Estruturas poderosas, mas muito pesadas para se moverem e chegarem eficazmente ao terreno. Pergunto-me: afinal gastam-se fortunas em estruturas de emergência, mas quando seria necessário actuar no terreno, não são eficazes e a coordenação da ajuda falha. Bem razão tem o Papa Bento XVI quando no nº 67 da encíclica Caridade na Verdade escreve: Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso ... a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações. De igual modo sente-se a urgência de encontrar formas inovadoras para actuar o princípio da responsabilidade de proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns. Isto revela-se necessário precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico e económico que incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos.
Entretanto a Caritas Nacional e Internacional contactaram com a sua congénere do Haiti e percebeu-se que a rede dos serviços sócio-caritativos da Igreja católica estava a funcionar, apesar de também atingidos pela catástrofe. Por aqui concluo que temos de incrementar os serviços de proximidade e as instituições internacionais devem articular-se com eles, sem preconceitos de Igrejas ou religiões. Sabemos que a maioria dos Haitianos são católicos e as Igrejas estão sempre no terreno e perto do povo. E ainda bem. Também a nossa Caritas Diocesana logo enviou por email e sms o número da conta de emergências e disponibilizou os recursos existentes à congénere do Haiti através da Caritas Nacional. Se algum dos nossos ouvintes e leitores puder ajudar, não hesite em fazê-lo também através destes serviços da Igreja. O importante é que a ajuda chegue ao terreno e quanto antes, embora vá ser preciso muito tempo para reconstruir as vidas, as habitações e a economia deste pobre país.
Quer a nossa Caritas diocesana de Beja quer a Caritas Nacional disponibilizaram contas bancárias com os respectivos NIB’s para aí depositarmos o nosso contributo solidário e aqui menciono: Caritas Ajuda Haiti, NIB 003506970063000753053 ou Caritas Diocesana de Beja: BPI NIB 0010 0000 19889390010 57.
Mas as perguntas inquietantes continuaram e atingem os fundamentos da minha própria razão e da minha fé, exprimindo-se nos momentos de oração com interrogações como esta: Porquê, Senhor, tocou a desgraça a país tão pobre, sem recursos para reconstruir as suas casas, aldeias e cidades? Porquê acrescentar mais sofrimento a quem já tem uma cruz tão pesada? Que mal fez esta gente para ser castigada de maneira tão cruel? Perguntas semelhantes ouvimos por vezes de críticos agnósticos para pôr em causa a fé em Deus. Ao tempo do terramoto de Lisboa, em 1755, pensadores como Voltaire, Rousseau, Kant, etc. lançaram essas questões e até escreveram tratados sobre o sentido do mundo e da vida, questionando a relação de Deus com o governo do mundo. As ideias iluministas e racionalistas do tempo, que acreditavam ingenuamente no poder da razão e da ciência para resolver todos os problemas, estavam postas em causa. Afinal pode ou não a razão humana entender todos estes fenómenos e superá-los com a evolução da ciência ou declara-se a falência da razão humana perante estas catástrofes naturais e deixa-se às forças do acaso evolucionista o regime do planeta e do cosmos?
No meio deste turbilhão de perguntas sou acordado com as imagens da realidade brutal mas também com as palavras da oração da Igreja do segundo domingo do tempo comum, neste fim-de-semana. Vejo Maria, a Mãe de Jesus, a sentir as necessidades de uns convivas num banquete nupcial, em Caná da Galileia: Filho, não têm vinho! E Jesus, apesar de ainda não ter chegado a hora de manifestar quem era, apressou a sua hora, sensível ao pedido da Mãe e às necessidades de quem os convidou. Maria, confiante no poder do seu filho, interpelou os responsáveis da festa e também a nós: Fazei o que Ele vos disser. Aqui descubro o meu e o nosso papel: fazer o que Ele nos disser. E a Mensagem de Jesus e o seu testemunho de vida, tornado presente na vida da Igreja, são claros, nesta e outras situações. Não podemos fechar os nossos corações e olhar, voltando-os só para os nossos interesses. O que fizermos a um dos mais pequeninos, é a Ele que o fazemos e será, ontem, hoje e sempre, o critério da pertença ao seu Reino.
A este propósito não resisto em terminar esta nota citando, uma vez mais, a encíclica Caridade na Verdade, nº 78: Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5), e encoraja: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos apoiados pela fé na presença de Deus junto daqueles que se unem no seu nome e trabalham pela justiça. ... A disponibilidade para Deus abre à disponibilidade para os irmãos e para uma vida entendida como tarefa solidária e jubilosa.
Por hoje fico-me por aqui. Não nos esqueçamos de colaborar no alívio do sofrimento dos nossos irmãos do Haiti. Hoje são eles que precisam de nós, amanhã serão outros ou mesmo nós próprios. Assim se constrói a globalização da solidariedade e um novo tipo de sociedade, que Jesus anunciou e está sempre no seu começo.
Um bom dia e até para a semana, se Deus quiser.
† António Vitalino, Bispo de Beja