A Igreja tem uma palavra a dizer ao mundo, para que a vida humana continue a ser possível no nosso planeta terra, com dignidade e qualidade para todos. Não se trata de impedir o progresso, mas da defesa de bens e valores essenciais à vida através de um desenvolvimento sustentável e justo.
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Ao iniciarmos um novo ano civil, desejámos aos nossos amigos e familiares muitas felicidades, prosperidade, êxito, saúde, em suma, tudo o que de bom desejamos também para nós próprios, de acordo com a nossa escala de valores. Muitas vezes trata-se de frases feitas, de rotina de linguagem, sem compromisso nenhum da nossa parte, para que tal aconteça.
A Igreja, ainda dentro do espírito de Natal, dedica este primeiro dia do ano civil a Maria, com o título de Mãe de Deus, acentuando assim a sua maternidade divina, que dignifica a participação da humanidade na história da salvação, ao mesmo tempo que realça a divindade do Filho que ela deu à luz, o Filho de Deus que nela assumiu a nossa natureza humana e se tornou Deus connosco, para nos elevar à dignidade de filhos de Deus. Em 1968 a Igreja instituiu o primeiro dia do ano civil como Dia Mundial da Paz, lembrando aos cristãos e a todos os homens de boa vontade este bem precioso da paz, exortando-os a desejá-la, implorá-la e para ela contribuir com todos os meios ao seu alcance.
São belíssimas e oportunas as diferentes mensagens escritas pelos Papas para este dia. A mensagem deste ano tem por título: “se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”, uma temática de grande importância, num mundo em plena crise económica, em que muitos governos e empresários são tentados a usar todos os meios para a ultrapassar, sem consideração da ecologia, do ambiente, da harmonia de toda a criação, em que o ser humano está inserido, mas não é o seu senhor absoluto, e por isso não pode dispor de tudo a seu belo prazer. Na recente cimeira de Copenhaga sobre a preservação do ambiente pouco se conseguiu, precisamente porque os países altamente industrializados e os grandes países em rápido desenvolvimento não querem restrições impostas por motivos ambientais, embora sabendo que estão a contribuir fortemente para piorar as condições da vida no nosso planeta.
Na mensagem o Papa chama a atenção para o perigo da autodestruição do próprio homem, caso explore os recursos naturais para seu consumo desenfreado. Na visão cristã do mundo o ser humano tem a primazia entre todos os seres, mas não é dono dos bens e recursos deste mundo. Deve comportar-se como um administrador responsável e solidário com todos, descobrindo as potencialidades da natureza e, no seu uso, respeitando as suas leis.
Vale a pena citar algumas frases da referida mensagem, pois são belas e incisivas.
Logo no seu primeiro número o Papa começa por dizer:Se são numerosos os perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, devido à desumanidade do homem para com o seu semelhante – guerras, conflitos internacionais e regionais, actos terroristas e violações dos direitos humanos –, não são menos preocupantes os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu. Por isso, é indispensável que a humanidade renove e reforce aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho (nº1).
E, mais à frente, o Papa interpela a nossa consciência com as seguintes perguntas: Pode-se porventura ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenómeno crescente dos chamados «prófugos ambientais», ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada? Como não reagir perante os conflitos, já em acto ou potenciais, relacionados com o acesso aos recursos naturais? Trata-se de um conjunto de questões que têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento (nº 4).
Entretanto tenha-se na devida conta que não se pode avaliar a crise ecológica prescindindo das questões relacionadas com ela, nomeadamente o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação. Por isso, é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações (nº 5).
Esta Mensagem está toda ela recheada de oportunas e clarividentes afirmações acerca da interligação da paz com a preservação da natureza ambiental, a educação na família e na escola, as responsabilidades de todos e cada um, segundo o princípio da subsidiariedade. Nela se torna claro que a Igreja tem uma palavra a dizer ao mundo, para que a vida humana continue a ser possível no nosso planeta terra, com dignidade e qualidade para todos. Não se trata de impedir o progresso, mas da defesa de bens e valores essenciais à vida através de um desenvolvimento sustentável e justo.
Por hoje, fico-me por aqui. Um bom ano para todos os ouvintes e leitores, com progressos efectivos na solução dos problemas referentes às condições de vida no planeta terra Até para a semana, se Deus quiser.
† António Vitalino, Bispo de Beja