Diocese de Beja

NOTAS DA SEMANA DO BISPO DE BEJA - 2009.06.22

Artigos / Notícias
Enviado por Nuno_Sousa em 22/06/09 - 19:02

Os bispos de Portugal organizam, anualmente, umas jornadas de carácter pastoral, isto é, voltadas para a acção apostólica mais que para os aspectos doutrinais da vida e missão da Igreja. Estas jornadas são alargadas à participação de alguns colaboradores das dioceses, de acordo com o tema tratado. Este ano decorreram na semana passada, de 15 a 18 de Junho de 2009, em Fátima, tendo como tema a "Pastoral sócio-caritativa: Novos problemas, novos caminhos de acção".


Depois do simpósio realizado em Lisboa, a 15 de Maio, por ocasião das celebrações do cinquentenário do monumento a Cristo Rei e que teve como slogan inspirador: “em tempo de crise reinventar a solidariedade”, os bispos acharam por bem aprofundar mais a reflexão, para encontrar alguns compromissos operativos na área da solidariedade e da dimensão sócio-caritativa da Igreja em Portugal, em ordem a dar alguns impulsos de esperança aos nossos concidadãos. Esta temática terá continuidade na Semana Social, a realizar em Aveiro, de 20 a 22 de Novembro, subordinada ao tema: «Construção do bem comum - Responsabilidade da pessoa, da Igreja e do Estado».
Da avalanche de ideias e sugestões apresentadas durante as jornadas, apenas vou tecer algumas considerações nesta breve nota semanal, na esperança de, ao longo do ano, poder trazer outras ao conhecimento do nosso auditório.
Apontarei agora uma atitude fundamental, ao alcance de todas as pessoas e outra mais concreta e delicada, só possível se a primeira for acolhida.
A atitude básica diz respeito à compreensão da vida social e ao contributo de todos para o bem comum. Se não aceitarmos viver uns para os outros e não uns à custa dos outros, se não admitimos que a dignidade da pessoa humana é o cerne da vida social e a tese do destino universal dos bens assim como a corresponsabilização de todos na realização do bem comum, o que implica ninguém poder excluir-se do esforço comum para ultrapassar a presente crise, sem estas convicções profundas não conseguiremos resolver nem esta nem outras crises sociais. Esta não é apenas de ordem financeira e económica e por isso não se resolverá só com injecções de dinheiro.
Como se costuma dizer, em tempo de crise temos de unir esforços e assumir certas restrições e sacrifícios, sem os quais os mais fracos serão esmagados pelo peso das dificuldades. Em linguagem da moral cristã podemos afirmar que todos precisamos de nos reeducar para um estilo de vida mais sóbrio e simples, reduzindo os nossos consumos às necessidades fundamentais, no respeito pela ecologia e na partilha com os mais pobres. Para os cristãos não é novidade a pobreza voluntária por amor do Reino dos Céus e a história da Igreja apresenta-nos figuras heróicas na vivência dessa virtude evangélica, como por exemplo S. Francisco de Assis ou até mesmo o nosso Nuno de Santa Maria, o Santo Condestável, que, sendo o homem mais rico de então, no princípio do século XIV tudo deixou e viveu como pobre, servindo os pobres no convento do Carmo de Lisboa.
Da segunda sugestão apenas apresento aqui o início da sua concretização, para, num próximo futuro, desafiar as instituições sociais e outras forças vivas da nossa sociedade, para implementarmos algumas medidas de entreajuda para com os mais atingidos pela crise.
Por hoje aqui deixo a minha sugestão e pedido: as paróquias, as instituições sociais e caritativas, as escolas, as autarquias e as forças de segurança comecem por fazer um levantamento das situações de pobreza, em sentido lato, na sua vizinhança ou na área da sua intervenção. Se encontrarem alguma situação de extrema pobreza não esperem por soluções vindas de terceiros, mas tornem-se intermediários imediatos de algum alívio. Todos esses casos deverão ser levados posteriormente à rede social local, para que, na base do conhecimento da realidade, sejam encontrados dinamismos de inclusão e coesão social, só possível pelo envolvimento de todos na superação dos vários tipos de pobreza.
Com certeza que as causas da pobreza detectada não são iguais para todos e as soluções também não. Mas uma coisa é certa: não há solução sem dinamismos de proximidade e sem implicação de todos na descoberta e implementação das soluções. Mas este assunto abordá-lo-ei em notas futuras, depois de ouvir alguns dos agentes sociais implicados. Por hoje aqui deixo esta inquietação, mas também um grito de esperança, que se tornará realidade, se começarmos já o nosso processo de conversão à atitude solidária e de partilha da nossa existência, assim como a tarefa do levantamento das situações de pobreza e suas causas na nossa vizinhança.
Superar a crise está também nas minhas e nas vossas mãos, estimados ouvintes e leitores, e não apenas nas dos políticos e das instituições.
Até para a semana, se Deus quiser.


† António Vitalino, Bispo de Beja


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