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D. António Vitalino Dantas
«O trabalho ainda está quase todo por fazer.»
Toco à campainha da Casa Episcopal. É o próprio bispo de Beja quem vem receber a FAMÍLIA CRISTÃ à porta. Não é comum ser assim. Mas é habitual este bispo acudir em várias frentes quando os recursos são escassos. Multiplica-se, desdobra-se e assume, sem complexos, que é «secretário, bispo e até chauffeur» numa diocese pobre.
Nesta entrevista, D. António Vitalino Dantas frisa a necessidade da formação dos leigos e a importância de os padres se concentrarem no essencial da sua missão para evangelizarem o Baixo Alentejo. FAMÍLIA CRISTÃ - D. António Vitalino Dantas entrou nesta diocese a 11 de Abril de 1999. O que foi feito nesta década?
D. António Vitalino Dantas - Quando a gente vem de outra diocese, a primeira coisa que tem a fazer é conhecer a realidade e depois ver o que os antecessores puderam fazer com a sua fé e generosidade. Sempre gostei de não entrar em qualquer lado como salvador da pátria, mas como um continuador da missão dos Apóstolos e, portanto, dos meus antecessores. Foi isso que tentei fazer. Sempre percebi que esta era uma diocese diferente das outras. Geograficamente, Évora e Beja são as maiores do país. Demograficamente, é muito despovoada com núcleos populacionais muito distantes e alguns muito envelhecidos. Os meios são poucos numa diocese que é pobre. Com a pobreza há que saber criar riqueza, mas riqueza no âmbito espiritual. Por isso, nestes anos, procurei conhecer a diocese, fazendo muitos milhares de quilómetros. Depois comecei as visitas pastorais, terra por terra, começando pelas mais distantes a cerca de 130 km, já junto ao Algarve. E fui assim conhecendo a realidade até que terminei as visitas pastorais aqui na cidade de Beja. Deixei-a para último lugar, porque está tudo aqui concentrado. Foi uma opção pastoral, porque temos a mania do centralismo e eu quis descentralizar e atender mais às periferias, porque são aquelas que, por vezes, são as mais pobres de qualquer diocese. Procurei descentralizar no meu ministério nas visitas pastorais ao contrário daquilo que se faz na política que se procura centralizar tudo. E vi que há um grande caminho a fazer na formação de colaboradores a começar pelos próprios clérigos (padres, diáconos) e depois nos leigos, sobretudo no aproveitamento maior das mulheres na vida das Igrejas.
FC - Porque grande parte dos praticantes são senhoras...
D.A.V.D. - Em grande parte do Alentejo ainda há aquele complexo de que a Igreja é para mulheres, que não é próprio de um homem. Normalmente, os alentejanos são boas pessoas, é fácil entrar em contacto com eles, mas estas convicções ou costumes ancestrais são endógenos e é difícil modificar isso. Também creio que não é nossa missão meter todas as pessoas dentro das paredes da Igreja, mas é a de criar núcleos fortes de testemunho comunitário da fé, e é isso que tem sido um bocadinho o meu trabalho.
FC - Segundo o último Censo, a diocese tem 210 748 habitantes com sete e mais anos de idade. Destes, apenas 6 por cento vão à missa ao domingo. Nos escalões etários dos 15 aos 24 e dos 25 aos 39 a percentagem desce para três. Temos aqui uma Igreja muito envelhecida.
D.A.V.D. - Uma Igreja envelhecida com grande dispersão. Há aqui uma natalidade muito baixa. Há poucos baptismos, poucos casamentos. Os que nascem aqui chegam a uma certa idade emigram para as grandes metrópoles onde há trabalho diferente.
FC - Que leitura faz destes números?
D.A.V.D. - A Igreja é envelhecida mas a sociedade também é envelhecida. Não podemos criar uma realidade que não existe. Claro que há também crianças e jovens e temos de apostar um pouco mais nessa gente.
FC - Que trabalho tem sido feito exactamente para "puxar" essa gente?
D.A.V.D. - Algumas paróquias têm feito algum trabalho sobretudo na iniciação cristã. Há muitas crianças que só recebem o Baptismo na idade da catequese e há muitos que o recebem em adultos. Com esses que entram e tomam conhecimento da vida cristã já numa idade da razão, tenta-se trabalhar com eles e mostrar que a Igreja é uma comunidade viva, que é uma ajuda muito grande para a vida das pessoas.
FC - Esse trabalho tem dado frutos?
D.A.V.D. - Não aqueles que a gente gostaria, mas tem dado alguns naquelas paróquias em que se trabalha com consequência e não se procura um fruto imediato, mantendo-se a fidelidade ao processo de iniciação cristã e ao acompanhamento das pessoas nas diferentes fases da vida (catequese, juventude, jovens casais, preparação para o casamento, famílias). Temos apostado bastante na pastoral da família, mas deixa muito a desejar, dado que é difícil encontrar uma família completa que adira ao anúncio do Evangelho, que se ligue à Igreja pelos sacramentos e à prática da vida. Por vezes, temos mais contacto com membros isolados da família: as mulheres, as crianças. Os homens e os jovens com muito mais dificuldade. Enquanto não conseguirmos que a família seja atingida na totalidade dos seus membros estamos sempre muito deficientes. Portanto, o trabalho ainda está quase todo por fazer.
FC - Sente que em algumas paróquias as directrizes não têm sido levadas a bom porto?
D.A.V.D. - Pois... não são levadas a bom porto, em primeiro lugar, pela dispersão. Há párocos com imensas paróquias, que não têm conseguido aumentar o número de colaboradores para que a vida missionária não dependa só do padre, mas de toda a comunidade. Portanto, essa inserção dos leigos na vida e na missão da Igreja tem falhado. Há algumas excepções honrosas de párocos zelosos que têm sabido rodear-se dos meios e colaboradores necessários que estão a dar alguns frutos, sobretudo naquelas paróquias onde o padre está mais concentrado nesse núcleo e pode desenvolver acções mais consequentes durante todo o ano.
FC - Neste momento, as prioridades para Beja são, então, a formação dos leigos ...
D.A.V.D. - Depois ajudar os padres a concentrar-se no essencial do seu ministério para não se dispersarem em funerais e outras coisas, correndo de um lado para o outro, porque as áreas são muito grandes. A maioria dos padres aqui faz facilmente mais de 30 mil quilómetros por ano. Isso é quase um chauffeur profissional [risos]. E o bispo fazia... agora começou a fazer menos. Também estou a concentrar-me no essencial. Fazia cerca de 50 mil quilómetros por ano para percorrer a diocese, para todas as semanas marcar presença aqui ou acolá, reunir com os clérigos, grupos, movimentos. Tudo isso é um desgaste muito grande, sabendo que eu sou o secretário, o chauffeur e o bispo. Faço tudo. Eu também podia ter mais colaboradores, mas os colaboradores leigos para este ritmo de vida têm de ser pagos e a diocese não tem grandes recursos. Não tenho um padre que me possa acompanhar porque ele também está ocupado... então faço isso, mas sempre procurando partilhar.
FC - As vocações escasseiam.
D.A.V.D. - Nos últimos anos temos procurado as vocações dentro da própria diocese. Ordenei oito, quase a média de um por ano. Seis são alentejanos e isso já é um sinal de que desta massa estão a surgir os colaboradores para a vida da Igreja.
FC - E seminaristas?
D.A.V.D. - Estão três seminaristas na Teologia. É essa esperança de que o ministério ordenado não vai faltar nesta Igreja. Mas a minha aposta é que os colaboradores leigos lá no sítio onde estão, nas suas famílias, nas suas paróquias, nos seus trabalhos, sejam também apóstolos.
FC - Qual a relação que a Igreja tem com o poder local?
D.A.V.D. - É normalmente muito boa, seja ele de que cor ideológica for. Como aqui no Alentejo a maioria é da CDU, creio que não há nenhum problema entre comunidades paroquiais e autarquias. Há até uma boa colaboração na reparação das igrejas, porque os paroquianos não são muitos e são pobres, então há sempre umas parcerias e todas são interessadas em conservar o seu património.
FC - O maior problema do Alentejo é o desemprego. Tem contacto real com as famílias carenciadas?
D.A.V.D. - Às vezes batem aí à porta. Tenho que as encaminhar para a Cáritas. Felizmente na cidade de Beja temos uma Cáritas diocesana bem montada.
FC - O que propõe a Igreja nestes tempos de crise?
D.A.V.D. - Temos de dizer às pessoas que, por mais pobres que sejam e por mais infelizes que estejam, continuam a ser amadas e filhas de Deus. A nossa missão é sobretudo dar a consciência às pessoas de que têm uma dignidade, porque são nossas irmãs, são filhas de Deus e que não devem cruzar os braços. Têm também algumas capacidades para procurar algumas soluções. Quando não há soluções temos de alertar, pode haver outras soluções aqui ou acolá, o mundo da emigração é uma realidade deste Alentejo e do nosso país e por vezes para muitas famílias é também uma solução, mas tem de ser uma solução consciente e não irresponsável para fugir aos problemas....
Temos de aprender a ser solidários, não uma solidariedade que se baseia apenas em dar a esmola, mas ter atenção a toda a pessoa na sua dignidade, irmã nossa, filha de Deus, fazê-la participar daquilo que nos anima, da nossa esperança e pô-la também a procurar soluções como nós as procuramos, para que não fiquemos para aí esquecidos e desanimados.
FC - Falou da emigração. O bispo de Beja é também presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana. Do feedback que tem recebido, o que mais o preocupa?
D.A.V.D. - Preocupa-me sobretudo estes novos emigrantes, porque os antigos já conhecem o meio, estão mais ou menos integrados, já se "desenrascam". Hoje em dia, numa sociedade como na Europa, as pessoas já não se sujeitam a certas condições e se aqui já têm dificuldades, lá mais problemas encontram e temos que as ajudar. Nem sempre temos os agentes necessários, mas a nossa acção é mais de colaborar com as Igrejas locais para que tenham atenção a esse problema, assim como nós aqui tentamos com os imigrantes. Quando não conseguimos ajudá-los, pedimos às Igrejas de origem que nos ajudem nas áreas pastorais e sociais.
FC - Há portugueses que consideram que os imigrantes lhes estão a tirar o trabalho...
D.A.V.D. - Estão aqui muitos na agricultura, porque as condições em que se trabalha muitos alentejanos já não querem. Os imigrantes aceitam viver em condições que não são as normais e aí também chamamos a atenção dos empresários que não podem permitir isso. Isso aí é um trabalho da sociedade civil, de controlar essas empresas, de ver as condições que têm. Quando há uma discriminação para o mesmo trabalho temos de alertar. Quase mensalmente o fazemos.
FC - Conta a lenda que havia em Beja uma serpente assassina, que era o maior problema da população. A solução foi matarem o réptil, mas ficou um touro envenenado na floresta onde vivia a serpente. É devido a esta lenda que existe um touro representado no brasão de Beja. Qual é a serpente dos novos tempos aqui?
D.A.V.D. - Quais são esses males que estão a impedir que o Alentejo se desenvolva? Primeiro temos que ter em conta que aquilo que julgamos que é um mal para outros pode ser um bem. Por exemplo, o facto de o Alentejo ser tão despovoado, para outros é uma tranquilidade que os citadinos gostariam de ter.
De uma maneira sustentada, a sociedade devia ir dando respostas para que as pessoas possam viver aqui com uma vida digna desde que nascem até que morrem. Os empresários, quem tem o capital, têm de investir e o poder central tem de facilitar esses investimentos. Isso é um mal que se pode tornar um bem se tivermos isso em atenção.
Outra coisa que não facilita muito o desenvolvimento desta área do país é o analfabetismo. Que haja possibilidade de acesso à cultura.
Depois, talvez motivado pelo clima e pela tradição, há uma certa resignação. As pessoas não lutam muito pela vida como é o caso dos nortenhos que tentam resolver os problemas e não param enquanto não resolvem. O alentejano resigna mais e isso creio que é um mal. Temos que tentar meter aqui nos genes dos alentejanos esta colaboração na solução dos problemas de uma maneira mais positiva e activa.
FC - O Aeroporto Internacional de Beja é uma esperança?
D.A.V.D. - É uma esperança se não for um aeroporto para o turismo, mas se for também um aeroporto para o comércio. Que daqui também possam surgir oficinas e escolas orientadas apara a aeronáutica. Isso iria atrair gente jovem para aqui, não apenas turistas. Já se perderam alguns projectos de investimentos que havia da aeronáutica... De vez em quando há umas promessas, eu já não vou muito em promessas. É bom que elas existam, mas também é bom que haja quem as concretize.
FC - Quais os projectos do bispo de Beja?
D.A.V.D. - Se Deus me der vida e saúde mais oito anos, se chegar a essa idade de ser emérito... Oito anos ainda é muito tempo na vida de uma pessoa. Eu estava habituado como frade a ter projectos de três anos - o tempo que a gente tem para fazer alguma coisa...
FC - Agora com oito tem muito mais tempo para concretizar.
D.A.V.D. - É muito tempo para quem tem a mentalidade de frade e de um frade mendicante, que não se fixa, e missionário, mas dado que é assim eu costumo dizer que até ao ultimo momento de vida procuro desempenhar a missão de que estou incumbido e não abdicarei em beneficio disto ou daquilo. E não resignarei. Um dos projectos era conseguir aquilo que logo de início me animou: incrementar a evangelização por todos os meios, incrementar a participação das pessoas na vida comunitária e na vida da Igreja, formar as pessoas para que elas possam participar melhor. Se conseguir um certo nível de colaboração, de participação, de formação, então vou terminar com o grande sínodo da Igreja diocesana. O sínodo exige preparação, envolvimento do clero e leigos e exige formação, participação e colaboração... e se calha está muito e quase tudo para fazer. Fonte: Sílvia Júlio
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