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Num mundo efémero, global e em permanente ebulição, há estilos de vida que parecem não ser deste mundo, pelo menos não fazem parte das opções habituais do comum dos mortais. Por isso, alguns olham para essas pessoas com alguma admiração, mas também com a ideia de que não são perfeitamente normais, ou então escondem hipocritamente os seus comportamentos reais. Através da história do cristianismo têm assumido um papel preponderante, mas nem sempre compreendido, por vezes mesmo mal interpretado, inclusive em obras literárias de grande divulgação, como a Flor da Rosa de Umberto Ecco, O Código Da Vinci de Dan Brown, para não falar dos nossos escritores, sobretudo os da época romântica.
Estou a referir-me aos Consagrados, comummente conhecidos por Religiosos e Monges, frades e freiras. Não casam, não têm propriedades registadas em nome pessoal, tudo o que recebem põem ao serviço da comunidade, obedecem a um superior para definir as suas ocupações, não trajam de acordo com as modas, usando muitos deles hábitos de outras épocas, dedicam-se ao trabalho sem olhar à remuneração, por vezes gratuitamente e dedicam muitas horas do dia à oração comunitária e à meditação.
Tentando definir este fenómeno, que tem assumido diferentes formas através dos tempos, também de acordo com as diferentes culturas e necessidades socio-culturais, a teologia da Igreja diz que se trata de carismas ou dons de Deus à Igreja e ao mundo, para a santificação de quem os recebe e para o bem da comunidade. Chega mesmo a dizer-se que a Igreja particular ou diocese, que não tem nem gera diferentes formas de vida consagrada, não atingiu ainda a sua maturidade cristã. Por isso muitas dioceses importam comunidades de diversos estilos de outras Igrejas, ou são mesmo estas que se oferecem, em espírito missionário, parte essencial das suas vocações e da vida da Igreja.
Embora este fenómeno não seja exclusivo do cristianismo, basta olhar para os monges da Ásia, podemos dizer que encontra sentido e raízes profundas nos ensinamentos e na vida de Jesus Cristo. Ele mesmo viveu na perfeição aquilo que os consagrados tentam ser e reproduzir nas suas vidas. Cristo é o Consagrado por excelência, o Ungido e enviado para reconduzir todos ao amor absoluto e exclusivo de Deus.
Abordo este tema nesta nota semanal porque encerrou ontem a primeira semana da Vida Consagrada e no dia 2 de Fevereiro se celebrou o Dia do Consagrado, instituído pelo Papa João Paulo II na festa litúrgica da Apresentação do Senhor, que ocorre sempre a 2 de Fevereiro, em muitos lados conhecida como festa de Nossa Senhora das Candeias, lembrando o hino proclamado pelo velho Simeão, na altura em que os pais de Jesus, cumprindo a lei mosaica, O apresentaram e consagraram a Deus no templo: “porque meus olhos viram a Salvação, que ofereceste a todos os povos, Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo” (Lc 2, 30-32).
Através dos tempos os consagrados desempenharam sempre uma missão importante na vida da Igreja e da cultura ocidental, não apenas através da sua acção, das suas obras, edifícios e actividades sócio-culturais, mas sobretudo pelo seu estilo de vida, pelo seu ser, pela sua consagração, um sinal interpelante a um mundo que se rege por critérios do útil e do interesse material, sem grande abertura para o gratuito, o amor a Deus e ao próximo, o culto do absoluto de Deus na vida.
É este aspecto do testemunho de vida que o Papa Bento XVI acentuou no dia 2, na celebração que realizou na Basílica de S. Pedro, repleta de consagrados, que vivem, estudam e trabalham em Roma. Chamou-lhes pontes e intermediários da humanidade no caminho para o Absoluto, para Deus, dando continuidade pelo seu estilo de vida ao caminho encetado por Jesus Cristo.
Mais que nunca, a humanidade precisa deste sinal, desta interpelação, para acordar da sua alienação no efémero e no utilitário. As organizações da vida consagrada em Portugal escolheram como tema desta primeira semana o lema: “a vida consagrada, solidária na esperança”, que define bem a actualidade deste dom de Deus à humanidade. Entregando-se radicalmente ao Absoluto de Deus, os consagrados alimentam uma esperança solidária com os homens e mulheres, seus irmãos e irmãs. Por isso os encontramos na linha da frente da missão da Igreja e nos locais onde só o amor justifica a sua presença. Todos lembramos uma Madre Teresa de Calcutá, um Padre Damião entre os leprosos, mas tantos outros através dos tempos, santos fundadores de novos institutos como resposta às necessidades do seu tempo, desde S. Bento, Santa Escolástica, S. Francisco de Assis, S. Domingos, Santo Inácio de Loyola, S. Francisco Xavier, S. Vicente de Paulo, Santa Maria Rafaela, etc.
O Alentejo foi beneficiado pelas ordens religiosas depois da libertação do domínio islâmico até à sua expulsão em 1834, que foi um acontecimento desastroso para Portugal e muito especialmente para os alentejanos, até então muito ligados aos mosteiros, a nível cultural, económico e religioso. Apenas a partir do episcopado de D. José do Patrocínio Dias se fez sentir de novo a acção dos consagrados na diocese de Beja. Ele mesmo os chamou e até fundou novos estilos de vida consagrada, de acordo com as necessidades do Alentejo. Lembro apenas as Irmãs Oblatas do Divino Coração e o Carmelo do Sagrado Coração de Jesus. Hoje em dia surgem novos estilos de vida consagrada, as assim chamadas novas comunidades. A Fraternidade dos Irmãozinhos de S. Francisco de Assis é na nossa diocese uma delas. Agradecemos a Deus a vida e a presença de 18 consagrados do sexo masculino e 66 do sexo feminino presentes na área da diocese de Beja. Alguns e algumas, ou devido à idade ou às necessidades dos seus institutos, vão-nos deixando, a pouco e pouco. Para a maturidade da nossa Igreja de Beja é preciso que estas vocações de especial consagração surjam das nossas famílias. Algumas têm aparecido, mas precisamos de mais.
Deixo aqui esta expressão da gratidão a Deus e aos consagrados da nossa diocese, mas também o desejo de mais vocações para a vida e missão desta Igreja particular. Oxalá Deus e os alentejanos me oiçam!
Até para a semana, se Deus quiser.
† António Vitalino, Bispo de Beja
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