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Em todos os ramos da ciência é preciso fazer formação contínua, para não se ficar inutilizado intelectual e profissionalmente. Sendo a missão do padre voltada para a dimensão espiritual da pessoa humana, mais necessária se torna a permanente actualização, porque a pedagogia em ordem à realização integral passa pelo homem concreto, inserido num tempo e numa cultura, sempre em constante mutação. _______________________
Como já vem sendo habitual, na última semana de Janeiro de cada ano, a província eclesiástica de Évora, formada pelas três diocese do Sul, Faro, Beja e Évora, organiza jornadas de actualização e formação permanente do seu clero. Desta vez foi nas cercanias de Montemor-o-Novo, de 25 a 28 de Janeiro com a participação de cerca de 80 membros do clero das três dioceses. O tema deste ano, dedicado na Igreja Católica ao sacerdócio ordenado, foi precisamente a vida e a missão do sacerdote no mundo e na cultura actual.
Os prelectores foram escolhidos das diversas áreas do saber, clérigos e leigos, esclarecendo os fundamentos bíblicos do sacerdócio e mostrando também os diferentes paradigmas do padre através dos dois mil anos de história da Igreja, para apontar modos de exercício mais eficientes nos tempos actuais e na cultura portuguesa.
Vivemos um tempo de mutação cultural num mundo globalizado, o que altera o paradigma do exercício da missão do sacerdote, para ser fiel à sua identidade e ter algum êxito junto do homem e da sociedade contemporânea. Em todos os ramos da ciência é preciso fazer formação contínua, para não se ficar inutilizado intelectual e profissionalmente. Sendo a missão do padre voltada para a dimensão espiritual da pessoa humana, mais necessária se torna a permanente actualização, porque a pedagogia em ordem à realização integral passa pelo homem concreto, inserido num tempo e numa cultura, sempre em constante mutação. Por isso, as expressões e mediações para o ajudar a entrar na sua realidade integral, da qual faz parte a dimensão espiritual, também mudam. Um sacerdote, consciente da importância e da complexidade do exercício da sua missão, não pode parar no término da sua formação inicial, de per si bastante longa, em comparação com outros saberes. Se o fizer, corre o risco de ser relegado para fora da sociedade e ficar cada vez mais isolado e até mesmo desanimar.
Com certeza que o modelo da missão sacerdotal é Jesus Cristo, conforme o Novo Testamento e a Tradição da Igreja no-LO dão a conhecer. Mas, no mundo actual, Jesus Cristo encontraria outras mediações culturais para despertar nos seus interlocutores o interesse e a adesão. Para além das atitudes fundamentais do ser cristão, em que a perfeição consiste no amor, se vivido à maneira de Jesus Cristo, do qual S. Paulo na 1ª carta aos Coríntios, capítulo 13, nos dá uma descrição sublime, o exercício das diversas dimensões do sacerdócio requer inculturação contínua, a fim de interpelar a sociedade contemporânea.
Esta acção de formação teve essa finalidade e penso que a atingiu plenamente. Como alguém dizia, como observador atento, todos os grupos precisam de actualizar as suas armas de combate e afiá-las, mas também de criar o espírito e a disciplina de corpo, para poder usá-las com êxito. Penso que é neste ponto que se notam muitas falhas em todos os grupos. Entre nós reina um certo individualismo e espírito de improviso. Não se cultiva o espírito de corpo orgânico e de preparação intensa e persistente. Por isso vamos ficando para trás e lamentamos os nossos fracassos, apontando a culpa para os outros. Quem assim procede, corre o risco de desanimar, talvez até um dia desertar, deixando de acreditar na validade da sua missão para os tempos actuais.
Deixo aqui este desafio ao clero, mas também a todos os grupos, eclesiais e civis. Os tempos são complexos. Mas dispomos também de meios e recursos como ninguém antes de nós. Precisamos de saber usá-los, em ordem a um bom exercício da nossa missão e actividade. Certamente acções de actualização e formação permanente não são tempo perdido, mas indispensáveis para melhor servirmos. Para além de todo o saber actualizado, precisamos sobretudo de unir as pessoas, forças e recursos, para sairmos vencedores e ultrapassarmos as crises, sejam elas de que ordem for.
Na semana passada, insisti na necessidade de termos um espírito aberto e ecuménico, sem discriminação de pessoas, mesmo que de religiões ou confissões de fé diferentes da nossa. Hoje, deixo este apelo à formação permanente e à comunhão dos agentes, em ordem à prossecução e obtenção dos objectivos da nossa missão. Até para a semana, se Deus quiser.
† António Vitalino, Bispo de Beja
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