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A origem da Diocese de Beja perde-se na noite dos tempos.
Para começar, Frei Amador Arrais ligado a Beja por nascimento, Frei Manuel do Cenáculo e o Cónego José António Boavida, ambos filhos de Beja por adopção e zelo pastoral vão falar-nos sobre este assunto.
Frei Amador Arrais afirma que “no Concílio Sardense em Mysia, no ano 347, sob a presidência do Papa Júlio I, esteve presente Florentino, bispo de Mérida e Domiciano, bispo de Pax Augusta: tenho por muito provável que quanto os escritores disseram dos Pacenses, entenderam dos vizinhos de Beja”.[1]
Frei Manuel do Cenáculo, por sua vez, afirma que “neste católico território em verdade o Episcopado Gloriosíssimo e Antiquíssimo e hoje renovado, conta-se entre os nossos bispos primitivos a Domiciano que assistira ao Concílio Sardecense. Desta opinião forão todos os antigos interpretando Augusta donde era o prelado por Beja enquanto não vieram códices modernos que dizem ser bispo ab Asturicis da Hispanica. Repõe a esta subscrição os da sentença contraria ...
Acrescentão os desta opinião que levando consigo o grande Osio para Sardica quatro bispos das vizinhanças da Cordoba não é crível que fosse ao Norte em Astorga buscar um dos quatro i ficando-lhe o de Augusta, Beja, muito próximo”. [2]
Por último, o Cón. José Boavida fez da perra uma arma em defesa da manutenção da Diocese de Beja, contra aqueles que tinham decidido a sua extinção.
Ao escrever ao Núncio Apostólico na Corte de Lisboa afirma que a Diocese de Beja possui antiquíssimos e honrosos pergaminhos, escritos e selados com o sangue dos seus bispos, que no crisol do martírio provaram o seu heroísmo e a pureza das suas crenças, desde os primeiros tempos do cristianismo, como o demonstram os brilhantes factos da Igreja Pacense”. [3]
Baseado na tradição fala de um bispo Pacense, ordenado segundo uns por São Tiago Maior, segundo outros por São Pedro de Rates e que terá sido martirizado no ano 60. “É de crer que esse Bispo fosse S. Tesífon, que é contado entre os discipulos do apóstolo S. Tiago e que alcançara no ano 57 a coroa do martírio. É também apontado no número dos bispos Pacenses, S. Manços, que fora introduzido nas verdades da nossa religião pelo próprio Jesus Cristo e que animado pelo zelo apostólico de anunciar e propagar a boa nova, estabelecera algumas Igrejas na Lusitania, e nomeadamente nesta região, merecendo por isso a denominação de apóstolo da província Transtagana”.[4]
No entanto, a critica histórica não confirma este sonho do cón. António José Boavida.
Apesar de tudo, tendo em conta a importância de Mértola como porto cerealífero de Roma, considerando que muitos cristãos das comunidades primitivas eram recrutados entre escravos e homens da estiva, não nos repugna que alguns cristãos tenham pisado estas paragens logo nos primitivos tempos do cristianismo.
As primeiras memórias documentais surgem-nos na colegiada de Mértola em finais do séc. V. Segundo Leite de Vasconcelos podemos recuar bastante tempo mais a chegada do cristianismo a Mértola. Ao estudar as lápides do cemitério cristão da época Visigótica “ verificou que a maior parte deve derivar de sociedades cristãs fundadas na época romana, porque os nomes quase todos são romanos, raros de origem grega. Concluímos então que o cristianismo já vicejava (em Mértola) quando chegaram os bárbaros” [5], no início do séc. V.
Os monumentos do cemitério Visigótico de Mértola dão-nos conhecimento de uma colegiada formada por seis presbíteros, um leitor, um ostiário, um clérigo e um chantre (cantor principal). As mais de três dezenas de lápides encontradas foram levantadas entre 462 e 587 sendo as primeiras, das últimas quatro décadas do séc. V.[6]
É impressionante ler esta, entre as diversas inscrições: “André, servo de Deus, chefe dos cantores da sacrossanta Igreja Mertiliana, viveu 36 anos. Descansou em paz a 3 das calendas de Abril da era de 563 (30 de Março,
525). [7]
O primeiro bispo deste período data de 531, Santo Apríngio, referenciado e elogiado por Esidoro de Sevilha como homem de “elevado talento, eloquência e erudição manifestadas nos seus excelentes escritos sobre o Apocalipse e Cântico dos Cânticos e em outras obras, merecendo por tais títulos e predicados ser considerado no Anno histórico, como varão insigne em letras e virtudes”. [8]
Sucederam-lhe na cátreda de Beja: S. Urso, Palmácio, Lauro, Modário, Teodoredo, Adeodato, João e Isidoro Pacense.[9]
D. Frei Manuel do Cenáculo faz o elogiu deste último que manteve a Sé episcopal desde a invasão dos mouros em 715 até 754, ano da sua morte: “Avulta o Bispo Pacense Isidoro por suas virtudes episcopais e políticas, sabendo conservar a cristandade ainda mesmo no governo mourisco. Seus escritos assim o mostram”.[10]
A avaliar pela pujança da comunidade cristã de Mértola, pela monumentalidade e beleza da igreja de Santo Amaro de Beja, quantos segredos e memórias deste tempo, esconde o sub solo da área urbana da cidade?
De 754 até aos alvores da fundação da nacionalidade, na primeira metade do séc. XII, não temos dados significativos sobre o rumo do cristianismo nestas paragens.
O caso de S. Sisenando que nasceu em Beja junto da Igreja do Salvador e foi martirizado em Córdoba em 16 de Julho de 851, o­nde estudava ciências eclesiásticas, diz-nos que apesar das mais que certas dificuldades causadas pela ocupação mourisca, a fé católica e apostólica mantinha-se viva e dava frutos de grande heroísmo.
Frei Manuel do Cenáculo reforça esta ideia: “Beja teve a dita de nela se conservar a vida cristã ainda mesmo no domínio da infidelidade maometana”. [11]
“No século nono florescerão Santo Sisenando e o confessor Tiberino e Helias, mártir. No século undécimo temos o Santo Atto”. [12]
Segundo Cenáculo, Tiberino e Helias, eram companheiros de S. Sisenando. Com a morte de Isidoro Pacense a sede episcopal de Beja foi transferida para Badajoz. Com a reconquista, passa a estar ligada à Diocese de Évora.
Beja foi conquistada a primeira vez na noite de 30 de Novembro de 1162. Mas até 1222-1224, o fluxo e o reflexo da guerra, deixou a região profundamente abalada e destruída nos aspectos económicos, político, social e demográfico. No entanto, penso que a área da fé cristã foi uma significativa excepção. Na verdade, em 1270, João Manião, primeiro prior de Santa Maria, levanta o templo, organiza o culto, anuncia o evangelho, institui a primeira e benemérita colegiada naquela igreja.
Este dinamismo estende-se às paróquias de Santiago Maior, S. João Baptista e Salvador, ainda no último quartel do século XIII, segundo cremos.
Com a fundação do Ducado de Beja com os infantes D. Fernado e D. Beatriz, em 1453 e até 1580, criaram-se em Beja excepcionais condições de desenvolvimento e progresso nos campos político, social, económico, cultural, demográfico e religioso. O século XVI viu a fundação de o­nze conventos, com mais dez nos séculos anteriores e mais nove nos séculos seguintes.
Aquando da visitação do Cardeal D. Afonso em 1534, vivia-se na região de Beja um regime de cristandade, com 36 presbíteros na cidade que tinha aproximadamente 1380 fregueses, mais vinte no seu termo.
O século XVII viu aparecer grandes místicos, como Madre Mariana da Purificação, Madre Maria Perpétua da Luz (convento da Esperança de Beja), Frei António das Chagas, franciscano (da Vidigueira) e muitos outros.
No princípio do século XVII, o Mestre Manuel Feio, Pároco do Salvador foi o grande pregador da existência e devoção a S. Sisenando e fez com que viesse de Córdoba, o­nde Sisenando tinha sido martirizado, a 6 de Julho de 851, a relíquia que se venera no relicário do altar do mesmo Santo, na igreja Catedral.
A 24 de Outubro de 1651, por acção do Vigário Geral da Diocese, governador da cidade e pároco do Salvador, o Mestre Jácome Esquivel, o clero, a nobreza e o povo da cidade de Beja aclamaram S. Sisenando como padroeiro principal da cidade.
Em 1770, depois de 1016 anos de “triste viuvez” o Papa Clemente XIV restaura a Diocese de Beja pelo breve apostólico “Agrum Universalis Eclesiae”, de 10 de Julho de 1770.
Foi eleito Bispo da Diocese restaurada D. Frei Manuel do Cenáculo que até 1777 esteve ao serviço da política déspota e prepotente do Marquês de Pombal.
Numa época de grandes convulsões políticas, sociais e ideológicas eis a galeria dos Bispos duma Diocese sucessivamente adiada:
        D. Frei Manuel do Cenáculo – 1770 – 1802
        D. Frei Francisco Leitão de Carvalho – 1802 – 1806
        D. Frei Joaquim do Rosário – 1807 (não chegou a entrar na Diocese)
        D. Frei Manuel do Cenáculo – 1808 – 1814 (como metropolita)
        D. Manuel de Sousa Carvalho – 1814 (faleceu antes de tomar posse)
        De 1814 – 1818 ligado a Évora
        D. Luís da Cunha de Abreu e Lelo – 1819 – 1833
        D. Manuel Pires de Azevedo Loureiro – 1833 – 1848, só em 1844 foi confirmado.
        Ligada a Évora de 1833 – 1844
        D. José Xavier de Cerveira e Sousa – 1848 – 1859
        D José António de Mata e Silva – 1859 – 1860
        D. António Trindade de Vasconcelos Pereira e Melo – 1860 – 1863
        De 1863 – 1883 sem bispo residencial. Vigários Pró-Capitulares:
        Dr. José Dias Correia de Carvalho – 1863 – 1871
        Dr- José António Boavida Pereira Bilhau – 1871 – 1883
        D. António Xavier de Sousa Monteiro – 1883 – 1906, teve a honra e o pesadelo de fundar o Seminário por decreto de Sua Majestade de 3 de Julho de 1884.
Homem de grande cultura e zelo pastoral, muito cedo o liberalismo maçónico e jacobino lhe moveram tão feroz perseguição que o levaram á atitude infeliz de entregar o governo do Seminário e Diocese aos irmãos Ançã, José Maria e Manuel.
A Diocese esteve sem bispo de meados de 1906 a primeira metade de 1908.
D. Sebastião Leite de Vasconcelos, governa a Diocese de 1908-1910, em tempo calamitosos. Estando em Moura na tarde de 5 de Outubro de 1910 e nessa noite e na manhã seguinte em Pias, daqui foge para Rosal, depois para Sevilha e Roma, para fugir a morte certa.
A suspensão das ordens religiosas em 1834 por António Aguiar, e a proclamação da República em 5 de Outubro de 1910, foram dois grandes cataclismos que quase destruíram por completo a Igreja no Baixo Alentejo. Ambos os acontecimentos foram secundados por grupos maçónicos anti-monarquicos e anti-eclesiais, ferozmente agressivas e militantes. Haja em visita que todas as Igrejas da Diocese foram judicialmente seladas em nome dos ideais da revolução em 1910. O grande argumento que os corífeus da Revolução fizeram correr e que o ouvi a uma manajeira em Serpa foi este: “O Rei morreu, Deus também morreu”.
De 1910 a 1922, a Diocese foi governada por Vigários gerais: Cónego Augusto Costa, pároco de Salvador, 1910-1913; Padre Dr. Joaquim Pereira Seco, 1914-1915; Cónego João Eduardo Marques, 1915-1922.
O último quartel do séc. XIX e as três primeiras décadas do séc. XX, foram caracterizadas por grande turbulências políticas, social e anti-cristã, com grupos arruaceiros e intimidatórios,semeando a instabilidade e a agressão a instituições, pessoas e bens.
Foi este ambiente militantemente hostil e provocatório que o bispo restaurador, D. José do Patrocínio Dias encontrou ao chegar á Diocese.
Indigitado a 16 de Dezembro de 1920, ordenado na Sé da Guarda a 3 de Junho de 1921, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, entrou na Diocese a 5 de Fevereiro de 1922.
As dificuldades aguçam-lhe o engenho, o prestígio pessoal do Bispo soldado aplana caminhos. O seu zelo pastoral leva-o a tornar possível muitos impossíveis. Dá-se à pregação, ao confessionário, aos contactos pessoais. Percorre a Diocese de lés a lés.
Em Janeiro de 1924 funda o “Eco Pacense” órgão oficial da Diocese. A Catedral de Beja é erecta por Decreto da Sagrada congregação consistorial de 14 de Novembro de 1925. O cabido da Igreja Catedral é instituída por Decreto do Bispo Diocesano de 14 de Novembro de 1925. Neste mesmo dia funda o Seminário Diocesano em Serpa.
A 15 de Maio de 1926, começa a caminhada das seis senhoras que foram a origem das Oblatas do Divino Coração. A 18 de Janeiro de 1928 funda o Seminário “Notícias de Beja”. A 4 de Junho de 1937, inaugura a Igreja Catedral, completamente remodelada e enriquecida. A sua sagração celebrou-se a 31 de Maio de 1946. No dia 13 de Outubro de 1940 inaugura o novo Seminário Diocesano de Beja. De 1942 a 1946 promove as missões populares da Diocese que culminaram com a grande visita á Diocese da imagem que se venera na capelinha da Cova da Iria. Em 1956, é lhe dado um bispo coadjutor na pessoa de S. António Cardoso Cunha. No ano seguinte, celebra as Bodas de Ouro Sacerdotais. Como sinal deste acontecimento amplia-se o Seminário de Beja. A inauguração desta ampliação deu-se em 1960. Desenvolveu intensa acção apostólica e socio-caritativa.
Ainda participa na primeira sessão do Concílio em 1962, mas sente que as forças lhe começam a faltar. Adormece no Senhor em Fátima, aos 24 dias de Outubro de 1965.
Sucede-lhe D. Manuel dos Santos Rocha que governa a Diocese até 1980. Até à sua resignação aceite pelo Santo Padre em 8 de Setembro de 1980 procurou consolidar e incrementar a acção pastoral anterior e teve o trabalho e o mérito de implementar na Diocese a reforma consiliar, promovendo várias acções de formação neste sentido.
Sucede-lhe, D. Manuel Franco Falcão que era Bispo Coadjutor com direito a secessão desde 27 de Novembro de 1974. Continua a implementar na Diocese o Concílio Vaticano II.
A sua acção é caracterizada pela aplicação dos princípios científicos da Sociologia religiosa aos Planos e Programas de acção pastoral a partir de 1976 ainda como Bispo coadjutor. Funda o Boletim de Informação Pastoral publicado entre 1976 e 1980, a sua escrita fácil, sóbria e técnica faz-se sentir em muitos documentos mas especialmente em várias secções do “Noticias de Beja”.
A partir de 1980 até aos primeiros anos de noventa, promove e acompanha as vária fases das Missões Populares que agitaram apostólicamente a Diocese. Pela sua vontade imprimiu-se no Seminário uma nova filosofia vocacional; adaptou-se uma parte do edifício para Centro Pastoral e Sede de alguns serviços diocesanos e movimentos de apostolado; criou-se a Casa Pax do Clero; construiu-se um novo pavilhão para o Seminário propriamente dito e implementou-se o loteamento do Seminário.
O Senhor D. Manuel Falcão prestou grandes serviços á Conferência Episcopal Portuguesa.
Estabeleceu um dialogo critico e objectivo com a sociedade ambiente, provocando respeito e admiração.
Ao Sr. D. Manuel Franco Falcão sucede-lhe D. António Vitalino Dantas, que é solenemente recebido numa grande celebração eucarística, no cenário grandioso e significativo da barbacã do Castelo de Beja a 11 de Abril de 1999.
 
Cón. António Mendes Aparício
 
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Notas:
[1] ARRAIS, Frei Amador, Diálogo de Frei Amador Arrais, Porto: Lello e Irmãos editores, 1974, p.230
[2] Sisenando Mártir e Beja sua Pátria, por Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, Arquivo de Beja, Vol. VI, fasc. III e IV, Julho/Dezembro, 1949, p. 450
[3] BOAVIDA, Cón. António José, Trabalhos Pastorais, Lisboa: Typografia do Diário da Manhã – 7 – Travessa da Esfera –7, 1883, p. 118
[4] Ibidem, p.300
[5] ALVES, Fernando Delgado, Aspectos da Arqueologia em Myrtilis”, Beja, 1956, p. 62
[6] Ibidem, p.63 a 82
[7] Ibidem, p. 67
[8] BOAVIDA, ibidem, p.302
[9] Eco Pacense, Ano VI, nº 8, 9 e 10, de 1927, p. 19 a 22
[10] BOAVIDA, ibidem, p. 302 - 303
[11] Sisenando Mártir e Beja sua Pátria, por Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, Arquivo de Beja, Vol. III, fasc. III e IV, Julho/Dezembro, 19469, p. 357 
[12] Ibidem, p.358



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